Agêneres – o que diz a Doutrina Espírita?

Dirigido por Brad Silberling, no ano de 1998, chegava às telas o filme “Cidade dos Anjos” – Uma estória de amor entre um anjo e uma mortal. De grande sucesso, até hoje, esse drama é visto com grande emoção pelas pessoas romanticas, sensiveis. Respeitando a criatividade por parte dos autores e diretor, o nosso objetivo nesse pequeno artigo é utilizarmo-nos da ideia do filme para tratar de forma leve, porém com a seriedade e respeito que a Doutrina Espírita merece, o tema: agênere.

O filme conta a estória de um anjo, encarregado de cuidar e confortar os pacientes terminais, de um hospital em Los Angeles. Aprendemos com a Doutrina Espírita que “anjos” são seres que percorreram todos os graus da evolução. (perg. 128/129 de O Livro dos Espíritos). E que Espíritos abnegados sempre socorrem e amparam aos necessitados.

O anjo, cujo nome é Seth, apaixona-se por uma médica que acabara de perder um paciente durante uma cirurgia. Seth ouve e observa os humanos, no entanto, nenhum deles consegue vê-lo. Resolve, então, ficar visivel para a médica, de modo a encontrá-la frequentemente.

O leitor poderá nos perguntar: Os Espíritos (anjos) podem se tornar visiveis?

Sim, podem, sobretudo durante o sono. Contudo, revela-nos a Doutrina Espírita, que algumas pessoas podem vê-los também no estado de vigilia, mas, isso é raríssimo. (O Livro dos Médiuns, Cap. VI – Manifestações visuais).

Ao se tornar visivel o anjo Seth nos traz duas possibilidades de estudo:

  1. Sobre uma aparição vaporosa;
  2. Sobre uma aparição solida tangivel, a qual a Sociedade Espírita de Paris denominou: agênere.

O fenômeno das aparições vaporosas e do agênere é explicado por Kardec: o Espírito tem dois envoltórios: um grosseiro, pesado e destrutível:  o corpo. O outro etéreo vaporoso e indestrutível:  o Perispírito. Após a morte do corpo segue o Espírito com seu perispírito. Por sua natureza e em seu estado normal o perispírito é invisível, mas pode sofrer modificações que o torna perceptível à vista, por uma espécie de condensação, ou por uma mudança em sua disposição molecular. Assim, pode aparecer sob uma forma vaporosa, porém se a condensação for de grande intensidade o perispírito adquirirá propriedades de um corpo solido e tangível.

Pode-se observar que Seth, o anjo do filme em questão, não sente calor, nem o vento no rosto, nem o gosto de uma fruta, muito menos o toque de sua amada. Mas o amor que sente pela cirurgiã, faz com que pense em desistir da eternidade, voltar a ser humano para ficar com ela. No desenrolar da trama, ele renuncia a condição de anjo podendo ser tocado, ou seja, se torna tangível à mulher amada.

Sabemos que a renúncia à vida espiritual, ou o retorno à vida material, só se dá pela via da reencarnação, o que impediria Seth de estar com a amada; ele então aparece na Terra, adulto. Nesse cenário podemos concluir que ocorreu o fenomeno da aparição de um agênere.

 

Aparição de agênere.

Eis um tema pouco estudado pelos espíritas e que vem sendo explorado de forma equivocada em determinados tipos de literatura. È necessario passar tudo pelo crivo da razão. Antigamente o Controle Universal do Ensino dos Espíritos – CUEE -, era corroborado por diversos Espíritos em diversos locais do mundo. Na atualidade, podemos fazer esse mesmo controle comparando os livros mediúnicos com os ensinamentos contidos na Codificação. Se o conteúdo não estiver em consonância com os princípios doutrinários, a obra deve ser considerada uma opinião isolada do autor ou autora e não poderá ser tratada como uma obra espírita e sim espiritualista.

Agênere é uma modalidade de aparição de um Espírito com aspectos de tangibilidade. É um estado em que alguns Espíritos, temporariamente se revestem das formas de uma pessoa viva, produzindo assim uma ilusão completa.

Embora desnecessário, vale lembrar que esse é um fenômeno totalmente natural, não há milagres, não é um fenômeno sobrenatural, não ocorre derrogação da natureza.

Kardec denominou esses seres de agêneres com o objetivo de indicar que a origem não é resultado de uma geração. Dito de outro modo, um agênere não é gerado e nem morre.

Para que um Espírito condense seu perispírito de modo a se tornar um agênere, são necessárias:

. Vontade do Espírito;

. Combinação de fluidos afins peculiares aos encarnados;

. Permissão do plano superior;

. Outras condições cuja mecânica se desconhece.

Cumprindo esse roteiro a tangibilidade pode chegar a tal ponto que é possível ao observador tocar, apalpar, sentir a resistência da matéria, o que não impede que o agênere desapareça com a rapidez de um relâmpago, através da desagregação das moléculas fluídicas.

“Um Espírito cujo corpo fosse assim visível e palpável teria, para nós, toda a aparência de um ser humano; poderia conversar conosco e sentar-se em nosso lar qual se fora uma pessoa qualquer, pois o tomaríamos como um de nossos semelhantes”. (RE. Fevereiro de 1859).

Kardec chegou à conclusão que: “O Agênere propriamente dito não revela sua natureza e aos nossos olhos não passa de um homem comum, sua aparição corpórea pode ter longa duração, conforme a necessidade, a fim de estabelecer relações sociais com um ou vários indivíduos”.

Porém, nossa intuição acusa que há algo de diferente na ‘pessoa’. Sentimos que algo de estranho esta ocorrendo. Kardec ensina que sempre se notará nas atitudes de um agênere “qualquer coisa de estranho e de insólito que deriva ao mesmo tempo da materialidade e da espiritualidade: neles, o olhar é simultaneamente vaporoso e brilhante, carece da nitidez do olhar através dos olhos da carne; a linguagem, breve e quase sempre sentenciosa, nada tem do brilho e da volubilidade da linguagem humana”. (A Gênese, Cap. XIV Item 36).

Necessário esclarecer que Kardec não quis dizer que o fenômeno seria de caráter permanente, caso contrário, estaria em oposição ao Espírito São Luís, um dos Espíritos que assinam o Prolegômenos de O Livro dos Espíritos, portanto, membro atuante na Codificação, que na Revista Espírita de 1859 afirma:

“Tais fatos são excessivamente raros e jamais tem caráter de permanência, portanto a aparição de um agênere é um fato raro e breve…. Os Espíritos que geralmente tomam a aparência de encarnados pertencem às classes inferiores e seu objetivo é quase sempre o mal”. Esse conceito de São Luís contraria visceralmente o anjo Seth criado pelo enredo do filme, e muitos escritores. (grifo nosso).

Ao encerrar esse artigo não poderia deixar de observar que uma das condições para que um Espírito condense seu perispírito de modo a se tornar um agênere, é a autorização do plano Espiritual Superior, portanto, Jesus como governador da Terra sabe de tudo que acontece, e mais, que Seu plano para a Terra é a construção do Reino de Deus em nossos corações e mentes, por isso Seus ensinamentos sempre foram em torno do amor. Foge-nos a razão pensar que esse mesmo Jesus enérgico e amoroso, deixasse-nos à mercê de Espíritos que tomam a forma de agêneres e vem a Terra assassinar, perseguir, destruir ou qualquer outra iniciativa própria.

A Doutrina Espírita nos ensina a lei de causa e efeito e que tudo que plantarmos, colheremos. E ainda que essa colheita poderá se dar de várias formas. O dente por dente, olho por olho pertence ao Código de Hamurabi e não ao Código do Amor do Pai Celestial.

Reafirmamos as instruções do Espírito São Luiz sobre o agênere:

  • Não basta a vontade do Espírito; é também necessário permissão para ocorrer o fenômeno. (grifo nosso)
  • Têm as paixões dos Espíritos, conforme sua inferioridade; se inferiores buscam prazeres inferiores; se superiores visam fins elevados.
  • Não podem procriar.
  • Jamais tem caráter de permanência, ou seja, seu tempo de duração é pequeno.
  • É um fato raro e breve.
  • Não se tem meios de identificá-los, a não ser pelo seu desaparecimento inesperado.
  • Não têm necessidade de alimentação e não poderiam fazê-la; seu corpo não é real.

Seth no momento em que “renuncia” da sua condição de anjo e mergulha no ‘mundo’ dos humanos com todas as sensações, sentimentos e instintos aqui existentes, confirma o que nos ensina o Espírito São Luiz, na Revista Espírita de fevereiro de 1859, quando Kardec lhe pergunta se os agêneres têm paixões:

Responde São Luiz: “─ Sim. Como Espíritos, têm as paixões dos Espíritos, conforme a sua inferioridade. Se tomam um corpo aparente é, por vezes, para gozar das paixões humanas”. Mas Seth era um anjo (Espírito superior), portanto, já livre das paixões humanas. E ao cair ele sangra; o que seria impossível para um agênere. Seth então reencarnou? Sabemos que não, deixemos tudo isso na contabilidade da criatividade dos cineastas.

A sétima arte pode e deve ser criativa. O filme ‘Cidade dos Anjos’, cumpriu seu papel de entretenimento e ao mesmo tempo nos fez reflexionar. Cabe, portanto, aos Espiritas compromissados com a terceira revelação salvaguardar os princípios doutrinários.

A Doutrina Espírita está sustentada pelo tripé: Filosofia, ciência e religião (moral), sempre se utilizando da razão.

Portanto, livros cujo objetivo tem sido o de atemorizar os leitores, distorcer conceitos doutrinários, enfatizar o mal, criar quadros mentais negativos na mente do leitor, podendo levá-los a um quadro obsessivo, não podem e não devem ganhar espaço nas casas espíritas.

Neide A. Fonseca

Bibliografia consultada:

O que é o Espiritismo – Allan Kardec

O Livro dos Médiuns – Allan Kardec

O Livro dos Espíritos – Allan Kardec

A Gênese – Allan Kardec

Revista Espírita ano de 1858 e 1859.