Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo I sob o título “Eu não vim destruir a Lei”, título este retirado de uma fala de Jesus do Evangelho de Mateus 5, 17:18, Allan Kardec estabelece um roteiro didático de estudos relacionados ao processo histórico das revelações, retirando-as da “tradição textolátrica”, ou seja, da adoração pura e simples dos textos bíblicos para uma análise racional e coerente com o progresso filosófico e científico que o ser humano já alcançara em sua época.

Nesse primeiro capítulo, que vem logo após os estudos sobre Sócrates e Platão, considerados por Kardec como precursores do Cristianismo e do Espiritismo, Kardec estabelece ligações intrínsecas entre as leis promulgadas pelos Espíritos Superiores e transmitidas a Moisés, os ensinamentos posteriores trazidos pessoalmente por Jesus e, finalmente, o Espiritismo, numa união de propósitos e intenções focados na educação moral e espiritual humana de todos os tempos.

Com o Espiritismo, aprendemos que a Bíblia, em seu Velho Testamento, embora contenha ensinamentos morais e éticos, principalmente no Decálogo, que Jesus considera, porém altera e consubstancia e consolida em apenas dois : Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Igualmente aprendemos com Allan Kardec, que o que se destaca em o Novo Testamento, são os ensinamentos morais de Jesus que a Doutrina Espírita desmitifica, explica, amplia e propõe como código de conduta e que estabelece a união entre criatura e Criador de forma racional e coerente.

Trata-se, portanto, de uma nova visão da religiosidade humana, desprovida do aparato que as religiões lhe atribuíram com os templos, os rituais, os sacrifícios, os cerimoniais, as estruturas de poder estáticas e estagnadas no tempo.

Portanto, sem desmerecer – em absoluto – o valor do papel missionário que alguns religiosos tomaram para si e cujo espírito hoje se amplia através das organizações não-governamentais como no caso dos Médicos Sem Fronteiras e outros, o Espiritismo enaltece o espírito de religiosidade que se transforma em ação, através da solidariedade.

Um outro exemplo, na pessoa de um fotógrafo e documentarista norte-americano, James Balog, que vem reportando e ao mesmo tempo denunciando o degelo dos pólos, principalmente com relação ao último evento na Antártida, com o deslocamento da imensa plataforma de gelo Larsen C que se deslocou do continente e continua a fragmentar-se em milhares de icebergs em direção aos Oceanos. Seu trabalho foi mostrado no programa Cidade e Soluções do ecologista espírita André Trigueiro.

Por outro lado, a fé raciocinada que o Espiritismo proporciona, porque sustentada no conhecimento, e conforme propõe a FILOSOFIA ESPÍRITA, afasta a superstição com seus temores, e medos, frustrações e inseguranças, que fazem com que nossas vidas se transformem em um caudal de sofrimentos.

Daí muitos procurarem a ajuda da Psicologia, que, como cuidadora dos distúrbios mentais que grande parte da população mundial hoje carrega consigo, faz o seu trabalho terapêutico importante e necessário.
Porém, a Psicologia não é uma panaceia – um remédio para todos os males.

Ela tem as suas limitações, restrições e indicações específicas. E é tão ou mais limitada se não admitir a existência do Espírito imortal com suas milenares experiências ao longo das reencarnações sucessivas (Conselho Federal de Psicologia).

Portanto, é importante que a Filosofia Espírita, que podemos acessar em O Livro dos Espíritos seja o norteador de nossas vidas, que O Evangelho Segundo o Espiritismo seja o orientador para todas as horas, e que as demais obras da codificação espírita signifiquem verdadeiramente o Consolador prometido por Jesus de Nazaré, na teoria e na prática.

Moisés, como legislador, não fundou religião, apenas estabeleceu normas e códigos de conduta e comportamento social, e de respeito a Deus e às outras culturas.

Jesus pontuou os aspectos principais do Decálogo, mas resumiu-o, como dissemos, em dois : Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo, pois quem ama respeita. Respeita a Deus, a si próprio e ao próximo, ou seja, a Vida sob qualquer forma em que ela se manifeste.

O Espiritismo reconhece o valor espiritual e moral dos dois ensinamentos anteriores, e os atualiza, promovendo o Bem com racionalidade e objetividade.

Portanto, as três revelações que o filósofo espírita Herculano Pires denomina de “sínteses conceptuais”, com base em Kardec e Léon Denis, resumem, como sínteses, todo o processo que a humanidade tem atravessado em busca do sentido da vida, do porquê da própria existência, e de todas as questões que envolvem a convivência humana.

Portanto, é a Filosofia Espírita, que perquire, pergunta, busca e tráz respostas coerentes e objetivas.

Em 2600 anos de história da Filosofia, o ser humano sempre buscou a Verdade. Porém, coube a Jesus revelar a Verdade, ou seja, a existência do Espírito imortal que se sobrepõe a tudo, a todas as vicissitudes humanas, a todo sofrimento, a todas as alegrias efêmeras da vida material, vida material essa que nos serve apenas de aprendizado.

E é o Espiritismo, prometido por Jesus, que nos liberta de nossas prisões mentais e espirituais, conferindo-nos empoderamento sobre as nossas vidas – porém, empoderamento esse que nos confere responsabilidade sobre nossos pensamentos e ações.

O Capítulo I de O Evangelho Segundo o Espiritismo, quando Jesus diz que ”não veio destruir a Lei”, ele se refere às Leis Divinas, não as leis humanas de Moisés, presentes no Velho Testamento, que sofreriam mudanças com o tempo e o progresso das ciências.

Em seu tempo, quando Jesus ensina a Nicodemos que é necessário nascer da água e do Espírito, ele está se referindo à reencarnação, pois água, a matéria água, era uma das substâncias que na Antiguidade os filósofos pré-socráticos acreditavam ser o elemento primordial de onde se originavam todas as coisas.

Portanto, esse ensinamento inicial de Jesus sobre a reencarnação – mas que já era conhecido pelos povos antigos –, teve comprovação científica com Kardec e hoje continua a ser investigado nos centros de pesquisa em Terapia de vidas passadas (TVP), regressão de memória ou ainda retrocognoterapia, no Brasil, na Universidade de Juiz de Fora, em MG; em São Paulo no INTVP (um dos seus pesquisadores, dr. Julio Peres esteve presente num dos Cafés Filosófico-Espiritas por nós organizado e com o apoio do Centro Espírita Nosso Lar) e ainda na Universidade de Duke, Carolina do Norte, EUA dentre outras.

O item específico desse capítulo, A Nova Era, não diz respeito aos movimentos da chamada New Age norte-americanos surgidos a partir da década de 1980, nem tampouco os movimentos de auto-ajuda também surgidos nos EUA e que hoje invadem os espaços religiosos brasileiros. Talvez os ensinamentos de Jesus não sejam suficientes…

Seu autor, que assina como, Um Espírito Israelita refere-se ao momento histórico de plena assimilação dos ensinamentos de Jesus, secundados pelo Espiritismo, época essa no futuro, depois da pós-modernidade em que vivemos, chamada de forma mística de transição, mas que não passa de uma transformação natural e efetiva que acontece gradativamente nas consciências humanas a partir de agora, como cumprimento da Lei de Progresso.
Recomendamos a todos a leitura e reflexão dessa importantíssima passagem de O Evangelho Segundo o Espiritismo.
Sonia Theodoro da Silva – Filósofa