“Traduzir é conviver.” (Guimarães Rosa)

“Nosso ofício de tradutores é um comércio íntimo e constante com a vida.” (Valery Larbaud)

Se escrever é registrar o pensamento, traduzir é perpetuar a ideia. Se escrever é nformar, traduzir é difundir além-fronteiras. Se escrever é decodificar uma ideia, como um pintor eterniza sua emoção num quadro, traduzir é dar o acabamento com cores que exprimam, analogamente, as imagens que representam. Ou seja, as cores dão vida e sentimento à imagem. Tal como Van Gogh atormentava-se por não conseguir expressar em tela as suas percepções artísticas, pois eram pura intuição, o tradutor é o intuitivo por excelência, o linguista que busca inesgotavelmente a melhor palavra, aquela que vai exprimir um pensamento já registrado. E poderíamos continuar, sem, contudo poder expressar todo o significado que a tradução e a versão de e para um idioma estrangeiro representam como veículo de difusão de uma ideia, seja ela consagrada pela cultura e pela história, ou não.

Este artigo não visa adentrar pelo enfoque acadêmico, pois desejamos atingir o grande público, aquele que desconhece a atividade de tradução e versão, a sua importância cultural, e mais precisamente o imenso trabalho que envolve a divulgação do Espiritismo em terras estrangeiras na atualidade, como força-tarefa que compõe o quadro atual de difusão dos ensinos superiores, no afã de minimizar as dores e o sofrimento em outros países, além de propiciar-lhes respostas às dúvidas existenciais, meios de indicar caminhos às questões científicas e filosóficas não-espíritas, que estão estanques e imersas no vazio, sem a análise do Espírito e suas consequências.

A Profissão e sua Ética

Existem profissões que, por não trazerem consigo o glamour das titulações acadêmicas nem o atrativo do ganho imediato exercem pouca influência nas opções de jovens indecisos. Hoje, a profissão de tradutor já alcança seu justo patamar de importância, pela qualidade e pela amplitude cultural que proporciona, embora, num país de crises econômicas constantes, sempre se encontrem meios de solapar qualidade/ganho, a favor da dita sobrevivência. (…) O trabalho com tradução, quando realizado em ambiência ética e profissional, envolve muita pesquisa, principalmente com relação à temática da obra que se pretenda traduzir, estudos aprofundados do português e do idioma para o qual se versiona, participação em oficinas e workshops ligados ao setor para atualização e convivência com outros profissionais e troca de experiências visando enriquecer a própria profissão. (…) Mas já houve tempo em que o tradutor foi literalmente sacrificado à sua obra. Foi o caso do francês Etienne Dolet (1509-1546), queimado por heresia devido à sua tradução de Platão, julgada herética pela Igreja. Em tempos mais recentes (1991), o tradutor japonês dos “Versos Satânicos”, Hitoshi Igarashi, foi assassinado, e o tradutor italiano do mesmo livro, Alberto Caoriolo, foi esfaqueado. Desta forma, a profissão poderia estar inserida numa ode à la Ilíada, com lutas acerbas, heróis nacionais, soldados desconhecidos, guerreiros valorosos, verdadeiros arquétipos junguianos a compor o inconsciente coletivo desta que é uma humanidade contraditória por excelência, em busca da própria liberdade consciência.

E ela – a liberdade de consciência – começou sua saga em busca do conhecimento a partir da primeira tradução da Bíblia para um idioma compreensível, para a massa popular, sedenta de respostas às suas dúvidas e lamentações. À época julgava-se que o Livro Sagrado era a Palavra de Deus, o sinal da Divindade à humanidade sofrida, engessada pela clausura de Jesus e de seus seguidores. Jesus fora alçado à categoria de encarnação de Deus, e seus mais dignos representantes, Santos irremediavelmente inatingíveis ao mais comum dos mortais. O resto da história conhecemos muito bem. Séculos de ignorância plasmaram e solidificaram no imaginário humano a cruz sacrificial, a culpa irrefletida, o distanciamento da própria espiritualidade, a subjugação feminina ao masculino, o preconceito religioso, o pecado original, a negação do outro como semelhante, a criação do panteão de mitos e dogmas, a demonologia, o niilismo, o inferno existencial. Problemas que carregamos até os nossos dias, e que ajudou a criar esta sociedade profundamente equivocada em seus atuais valores, em franco processo de deterioração. Casa construída sobre terras pantanosas. (…)

A Tradução e a Versão das Obras Básicas

São conhecidas as versões iniciais de Anna Blackwell para o inglês, em fins do século 19, de “O Livro dos Espíritos” (antecedida de pequena biografia de Allan Kardec). Ao introduzir a obra, dedica sua tradução, com respeito e afeto, à Sra. L.D.H. Rivail e finaliza afirmando: “I executed this task with scrupulous fidelity to Spiritism and Mr. Allan Kardec”. Em “The Mediums’ Book”, seu Prefácio é incisivo: a obra não é dirigida aos materialistas, mas para aqueles que procuram estudar seriamente a ampla fenomenologia compilada por Kardec, à luz dos ensinos superiores.

Em nossos dias, as traduções (…) feitas no exterior trazem um perfil interessante de como as instituições em terras estrangeiras estão lidando com o assunto, em meio às dificuldades financeiras de praxe. Contudo, tanto em terras distantes quanto aqui no Brasil, enfrentamos problemas sérios quanto à tradução dos originais franceses. O Espiritismo surgiu no momento certo para a re-edificação do novo edifício, desta vez em rocha sólida. Não sem sofrer as consequências de séculos de ideias estagnadas e de sentimentos atrofiados. O prof. e filósofo brasileiro José Herculano Pires, tradutor fiel de várias obras da codificação espírita, arriscou dizer, na década de 1970, que o Espiritismo era o ilustre desconhecido em terras brasileiras, pois imerso estava nos mares do esoterismo, do religiosismo, da incompreensão entre os próprios espíritas. E lançou seu “Curso Dinâmico de Espiritismo”, como um grito de necessária revisão de abordagens, num mundo de pós-guerra mergulhado nas guerrilhas asiáticas e sul-americanas, e na ditadura brasileira. E com mais coragem, sua “Revisão do Cristianismo”, complemento necessário ao “Cristianismo e Espiritismo” de Léon Denis. Mas foi com justa indignação, em fins da década de 1970, em resposta à versão adulterada de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, que o prof. Herculano lança seu corajoso “Na Hora do Testemunho”, modelo de defesa não só da fidelidade editorial no campo da tradução, mas de incansável preservação dos ensinos superiores.

Tempos depois, o mesmo episódio novamente acontece, com as justificativas de que é necessário utilizar-se “uma linguagem que todos entendam”. Desta vez, contudo, o silêncio. Ninguém notara (?) as graves alterações no conteúdo. Poderíamos dizer, levadas em conta as palavras de Paulo Rónai, que seria o mesmo que alterar “A República”, de Platão, ou a epopéia da “Ilíada” de Homero, sob a justificativa de que sua linguagem é arcaizante e suas ideias e costumes utópicos. Ou ainda, os versos de Camões, em “Lusíadas”, repleto de expressões em desuso; também “A Crítica da Razão Pura” de Kant, só compreendida pelos esforçados estudantes de filosofia, ou quem sabe ainda as obras de Shakespeare, os nossos Machado de Assis, José de Alencar, Gonçalves Dias, etc., descaracterizando desta forma o modelo literário que todos representam.

Os tesouros culturais da humanidade revelam momentos de crescimento intelectual, de encontro gradativo com a Verdade, de insights e descobertas que legitimam a evolução e a concretização efetiva dos valores universais. Fundamentam e enaltecem o cuidado de Espíritos de alta envergadura moral e intelectual com a capacidade humana de apreender-lhes os ensinos transmitidos através da mediunidade e da inspiração em todas as épocas e lugares.

E os homens, presos às algemas do tempo e dos costumes individuais e coletivos, interferiram ao longo dos séculos no Plano Divino da Criação, com as suas próprias ideias ainda insipientes e constritoras, retardando o próprio progresso e a própria iluminação. Se assim não fosse, Jesus não teria sido alçado à categoria de mito, seus ensinamentos não estariam ocultos sob os sincretismos religiosos, e suas palavras não teriam sido deturpadas. Inclusive nas centenas de traduções e revisões dos evangelhos, adulteradas de suas revelações acerca da mediunidade, da reencarnação, da realidade espiritual, transformando as evidências da vida após a morte em mero ritual sacrificial. (…)
Em 1957, em comemoração ao centenário da primeira edição de “O Livro dos Espíritos”, relata Canuto Abreu o zelo do codificador com a obra superior que lhe era trazida às mãos, para os devidos ajustes e compilação, seguindo as instruções do Espírito da Verdade, relato este também contido em “Obras Póstumas”. Lá verificamos o cuidado com que o mestre lionês tratou dos ensinamentos dos Espíritos Superiores, fidelidade esta expressa com suas próprias palavras, inclusive ao adotar pseudônimo, preservando, para o futuro, a autenticidade da obra. Isto explica inclusive porque não acrescentou ao Espiritismo a qualificação de Kardecismo ou Kardecista, como querem alguns adeptos nos dias atuais, mas sim, apenas ESPIRITISMO, a fim de legitimar a autoria dos Espíritos Superiores sob a orientação do Espírito da Verdade.
O mesmo cuidado deve ter o tradutor que versiona para outro idioma ou traduz para a língua pátria, em seu país de origem, as obras básicas espíritas, cujo conteúdo poderá ser alterado substancialmente em seu significado, contrariando o sentido original. As cinco obras da Codificação espírita compõem o acêrvo-patrimônio da Humanidade. Creio que ainda não tomamos plena consciência disto. A própria natureza do brasileiro, filho de uma nação jovem e sem características de tradição ou preservação de seu patrimônio, seja ele histórico, cultural, intelectual e até ecológico, o torna peculiar.

Assim como as instituições ligadas ao assunto não encontram o devido espaço na mídia, também a nossa nação ainda não despertou para a realidade de que um povo sem história é um povo sem referências. O mesmo raciocínio nos conduz a entender que uma Doutrina sem preservação de sua integridade, está fadada à fragmentação e ao esfacelamento ao longo dos próximos anos. Desta forma, estaríamos retardando de mais 2.000 anos a nossa necessária (e urgente) evolução no campo moral. Se tivermos tempo. (…)

A vida do codificador, de seus contemporâneos e seguidores, e no século 20, o trabalho ainda não plenamente reconhecido de Francisco Cândido Xavier e dos Espíritos Instrutores que compuseram a falange que desenvolveria, com ênfase à ética espírita presente no Evangelho de Jesus, todo um suporte de sustentação progressiva à codificação, carece de continuidade efetiva por parte de todos nós. Seguir-lhes os passos, as renúncias, o bom-senso, a dedicação e o profundo respeito à obra dos Luminares e incansáveis Amigos da Humanidade necessita de Humildade e Dedicação, num alto padrão de exercício e reconhecimento que ainda não logramos alcançar. Mas ainda há tempo. Os irmãos de outras terras buscam hoje, a palavra dos Espíritos Eternos contida nas obras que trazem o selo de Universais, pois assim foram definidos os princípios espíritas.

Traduzir ou verter uma obra sem essa tomada de consciência, e o que é pior, divulgá-la, será o mesmo que retardar o progresso e negar o consolo da promessa divina ao nosso próximo.
E mais uma vez teremos falhado.

SONIA THEODORO DA SILVA.
NOTA: Trechos da matéria contida no Anuário Histórico Espírita 2006 de Eduardo Carvalho Monteiro e L. Borba, orgs., ed. EME e CCDPE-Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo, 1a. ed. dezembro 2005.